O que provoca o humor da anedota?

O que provoca o humor da anedota?

Se a vertente trágica que inspirou o pensamento psicanalítico e sua práxis já foi por muitos explorada, a vertente do humor, diferentemente, esteve por longos anos deixada de lado pelos seguidores da psicanálise. Winnicott e Ferenczi deram importantes contribuições sobre o humor e o brincar na clínica. Em 1957, Lacan revisita o assunto com o seminário As formações do inconsciente. Os psicanalistas de agora têm retomado (ou recobrado) o humor, considerado como o outro lado do trágico, frente e verso, trágico e cômico e valioso recurso a ser utilizado na clínica psicanalítica e na própria vida. O chiste, o humor e o riso podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar.

Ao comentar a gravidez da cantora Wanessa Camargo, no dia 19 de setembro, o humorista Rafinha Bastos provavelmente não tinha noção da repercussão que sua piada causaria. O que deveria ser apenas mais um improviso do comediante na bancada do programa CQC acabou gerando uma grande discussão na sociedade acerca do papel do humor e de quais são os seus limites. Que diante da angústia de castração o eu não precise sempre recuar, mas seja capaz de rir do sofrimento, parece piadas engraçadas ser a lição que o humor nos ensina. Não é à toa que o humor surge principalmente no final da análise, quando as idealizações já ruíram e o analisando, já admitindo a falta e a castração simbólica, é capaz de rir de si mesmo e dos males tão dramáticos de seu passado. O humor também mantém presente na consciência a representação dolorosa e a superinveste, o que o aproxima do trabalho do luto, porém a reconstrução se dá dentro do Eu, que é o objeto ameaçado.

Na piada, a quebra de expectativa contribui para produzir o efeito de humor. Esse efeito ocorre porque um dos personagens

Eram ocasiões nas quais os artistas exibiam seu talento e imaginação, ao mesmo tempo em que divertiam o povo. Contudo, justamente os artistas mais lúcidos iriam desnudar em suas criações essa atmosfera de hipocrisia moral que caracterizava o cotidiano vienense. Um exemplo conhecido vem do próprio Freud, que conta o chiste do ‘familionário’, que condensa os vocábulos familiar e milionário.

Quando o analisando ri de uma intervenção do psicanalista, é ele próprio a terceira pessoa que ri, mas o alvo de seu riso é também uma parte alienada de seu Eu. Isto mostra que ele é capaz de reconhecer como familiar aquilo que estava escondido nas dobras de seu psiquismo. E nos faz pensar na proximidade do humor com o estranho, o Unheimliche, o horror mesclado ao riso, o riso úmido de lágrimas.

O que provoca o humor da piada?

O termo remete também para o verbo wissen que significa saber, ou seja, um gaio saber, um saber alegre. Consideraremos tanto as piadas quanto o humor apresentações privilegiadas do Witz, porém elegeremos o humor com o papel de destaque que lhe é dado por Freud no seu texto de 1927 – O Humor, vinte e dois anos após ter escrito o primeiro livro sobre o assunto. Freud ressalta que o humor surge “como um meio de obter prazer apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua como um substitutivo para a geração destes afetos, coloca-se no lugar deles” (FREUD, 1977, p.212). O humor seria uma das “operações psíquicas mais elevadas”, “um dom raro e precioso”, que se mostra um “recurso para auferir prazer” diante dos embates da vida e da trágica inevitabilidade da morte. Alexino afirma que é preciso ouvir os grupos retratados no humor para se estabelecer um limite.

Qual o efeito de humor gerado na história em quadrinhos?

Foi fundamental a condição judaica de Freud para inscrever o humor e as piadas em uma das formações do inconsciente, ao lado dos sonhos, atos falhos, lapsos e sintomas, pois o humor se insere nesta tradição judaica como meio de superar o sofrimento e as adversidades produzidas pela diáspora. Os impasses do sujeito puderam ser interpretados como algo da ordem do trágico e não da do drama, pois no trágico existe sempre o humor como possibilidade, ao contrário do drama, em que habita o ressentimento a ser transformado em masoquismo e melancolia. O termo Witz, traduzido na edição brasileira por Chiste, tem raízes no romantismo alemão e é de difícil tradução para o português. Os franceses preferiram esprit, espírito, o dom de quem é espirituoso. Podemos traduzir do alemão por dom de contar acertadamente algo alegre e divertido, dom de replicar pronta e alegremente, graça de espírito, o espírito da coisa, inteligência, engenhosidade, esperteza.

Quando a piada perde a graça e vira ofensa

“Por outro lado, se risse, se envolveria eliminando a distância necessária à neutralidade característica da atitude científica”. Freud publicou O chiste e sua relação com o inconsciente em 1905, apenas cinco anos depois do seminal A interpretação dos sonhos. Uma anedota é uma breve história, de final engraçado e às vezes surpreendente, cujo objetivo é provocar risos ou gargalhadas em quem a ouve ou lê.

O termo Witz tem suas raízes no Romantismo alemão, movimento cultural e artístico do qual Freud foi herdeiro, e é um termo de difícil tradução para o português. Em francês foi traduzido por “esprit”; “mot d’esprit” do qual dispõe quem é espirituoso. É um recurso no qual são utilizadas palavras ou expressões que possuem diferentes interpretações.

Entre amigos a gente ri dos maiores absurdos, por que não proferir isso? Ou seja, o sujeito mudaria o ritmo da dança da vida, de um repetitivo tango argentino ou dos dolorosos lamentos de um fado português para uma bossa-nova. E nesta dimensão trágica da existência, o chiste, o humor e o riso aparecem como formas efetivas de se lidar com o mal-estar. Em O mal-estar da civilização, com o conceito de pulsão de morte já criado, ele afirma que o mal-estar e a infelicidade banal estão registrados na condição humana, encontrando-se aí a dimensão trágica do sujeito.


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